Sons do Ceará: vozes e canções que atravessam o tempo e fazem a história musical cearense

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De clássicos eternizados por nomes como Belchior e Fagner à força popular do forró e às novas sonoridades que emergem em Fortaleza, a música cearense revela a riqueza cultural de um estado que transformou poesia e identidade em trilha sonora para o Brasil.

O Ceará é um território onde a música nasce do cotidiano: do vento no sertão, das festas populares, das rodas de amigos e das inquietações de quem observa o mundo com olhar poético. Ao longo das últimas décadas, artistas cearenses ajudaram a construir uma identidade sonora que combina lirismo, tradição e inovação, projetando o estado para o cenário nacional e, em muitos casos, internacional.

Mais do que sucessos, suas obras revelam modos de viver, sentir e interpretar a realidade nordestina, mostrando como a cultura musical do Ceará é diversa e profundamente conectada às suas raízes.

A geração que deu voz ao Ceará

Foto: Divulgação


Belchior

Nascido em Sobral, Belchior tornou-se um dos mais importantes compositores da música brasileira ao transformar inquietações pessoais e questionamentos sociais em canções densas e provocativas. Seu trabalho dialoga com temas como identidade latino-americana, juventude e transformação cultural, especialmente no disco Alucinação, frequentemente citado entre os mais importantes da história da música nacional. Entre seus maiores sucessos estão Apenas um Rapaz Latino-Americano, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida e Sujeito de Sorte, canções que se tornaram hinos geracionais e seguem ecoando em debates sobre comportamento e sociedade. Ao longo da carreira, construiu uma obra que transcende épocas, influenciando artistas de diferentes estilos e permanecendo relevante para novas gerações que se reconhecem em sua visão crítica e poética.

Foto: Divulgação

Fagner

Com trajetória iniciada ainda jovem, Fagner consolidou-se como um dos grandes intérpretes e compositores do país, levando a musicalidade cearense a públicos amplos com interpretações intensas e timbre inconfundível. Sua discografia reúne clássicos como Borbulhas de Amor, Canteiros, Deslizes, Revelação e Espumas ao Vento, que transitam entre o romantismo e a valorização das paisagens e sentimentos nordestinos. Ao longo das décadas, manteve presença constante no cenário musical brasileiro, colaborando com nomes importantes e ajudando a fortalecer a projeção cultural do Ceará para todo o país.

Foto: Erika Fonseca

Ednardo

Figura essencial do movimento que revelou a música cearense nos anos 1970, Ednardo construiu uma obra marcada pela criatividade e pela forte ligação com a cultura popular. Suas composições evocam imagens do sertão e narrativas simbólicas, especialmente em Pavão Mysteriozo, que se tornou referência cultural e afetiva para diferentes gerações, além de outras canções marcantes como Enquanto Engomo a Calça e Ingazeiras. Seu trabalho reflete a busca por uma linguagem artística própria, capaz de dialogar com o regional e o universal, mantendo viva a memória e a identidade do povo nordestino.

Foto: Divulgação


Amelinha

Com voz expressiva e grande sensibilidade interpretativa, Amelinha destacou-se ao dar vida a repertórios que exploram a poesia e a emoção características da música nordestina. Ficou nacionalmente conhecida por interpretações emblemáticas como Frevo Mulher, Foi Deus Quem Fez Você e Mulher Nova Bonita e Carinhosa, que evidenciam sua capacidade de traduzir sentimentos intensos e narrativas populares em performances marcantes. Sua trajetória reforça o papel feminino na construção da identidade musical do Ceará e ampliou o alcance da produção cultural do estado em âmbito nacional.

Foto: Davi Pinheiro

Fausto Nilo

Poeta, arquiteto e letrista de importância central na música brasileira, Fausto Nilo é autor de parcerias marcantes com grandes nomes da MPB, incluindo canções que se tornaram clássicos do repertório nacional, como Canteiros e Pedras que Cantam. Sua obra se destaca pela sofisticação poética e pela capacidade de traduzir paisagens, afetos e a sensibilidade nordestina em versos que atravessam gerações. Ao longo da carreira, contribuiu decisivamente para consolidar a presença do Ceará no cenário cultural brasileiro, reforçando a tradição de excelência lírica da música produzida no estado.

Foto: Guilherme Silva

Rodger Rogério

Integrante fundamental da cena musical cearense que ganhou projeção nos anos 1970, Rodger Rogério ajudou a consolidar o movimento artístico que colocou o estado no mapa da música brasileira. Embora sua obra seja mais ligada ao circuito autoral e coletivo, destacou-se em projetos e canções que dialogam com a efervescência cultural da época, como participações no histórico álbum coletivo Pessoal do Ceará, considerado marco da música cearense. Reconhecido pela consistência artística e pela contribuição ao fortalecimento da cena local, é lembrado como um dos nomes que ajudaram a formar uma identidade musical própria e duradoura.

Foto: Divulgação

Paulo Façanha

Cantor e compositor que dialoga com a tradição da canção nordestina e a sensibilidade contemporânea, Paulo Façanha construiu carreira marcada pela delicadeza interpretativa e pelo compromisso com a poesia musical. Seu trabalho valoriza a cultura regional e reafirma a força da música autoral cearense, conectando diferentes gerações por meio de repertório que une lirismo, identidade e reflexão.

O forró como expressão de cultura e celebração

Foto: Divulgação

Rita de Cássia

Compositora e cantora nascida no interior cearense, Rita de Cássia deixou contribuição fundamental ao repertório do forró romântico, sendo autora de sucessos gravados por grandes artistas do gênero. Suas canções, como a classíssima Meu Vaqueiro, Meu Peão, marcadas por emoção e sensibilidade, ajudaram a consolidar uma estética musical que dialoga diretamente com o cotidiano e os sentimentos do público nordestino.

Foto: Divulgação

Chico Pessoa

Conhecido por valorizar as raízes do forró e a cultura do sertão, Chico Pessoa construiu carreira dedicada à preservação da musicalidade tradicional. Suas interpretações e projetos reforçam a importância de manter viva a memória cultural nordestina, conectando o passado às novas gerações.

Foto: Divulgação

Waldonys

Sanfoneiro virtuoso e apaixonado pelas tradições nordestinas, Waldonys construiu carreira marcada pela valorização do forró e pela difusão da cultura popular. Suas apresentações, que frequentemente celebram a musicalidade do interior e o espírito festivo das festas juninas, reforçam a importância da sanfona como símbolo cultural e mantêm viva uma tradição que atravessa gerações.

Foto: Divulgação

Wesley Safadão

Nascido em Fortaleza, Wesley Safadão tornou-se um dos maiores fenômenos da música popular brasileira ao levar o forró eletrônico e suas variações a públicos massivos. Com shows grandiosos e presença firme nas plataformas digitais, ajudou a redefinir o alcance do gênero e a consolidar o Ceará como um dos principais polos de entretenimento musical do país.

Foto: Divulgação

Taty Girl

Com forte ligação com o público nordestino, Taty Girl construiu trajetória marcada pela energia no palco e pela participação em projetos que ajudaram a popularizar o forró eletrônico. Sua presença marcante em festas e eventos reforça o papel da música como elemento de celebração e identidade cultural.

Novas linguagens e a cena contemporânea

Foto: Divulgação

Matuê

Representante de uma geração que cresceu conectada ao mundo digital, Matuê tornou-se um dos principais nomes do trap brasileiro, levando a produção musical de Fortaleza ao cenário nacional e internacional. Seu trabalho evidencia como o Ceará continua a reinventar sua linguagem artística, dialogando com tendências globais sem perder referências locais.

Foto: Aras Soares

Marcos Lessa

Com carreira marcada por interpretações cuidadosas e repertório sofisticado, Marcos Lessa transita entre a música popular brasileira e projetos que valorizam a canção como forma de expressão artística. Sua trajetória demonstra a continuidade de uma tradição musical que preza pela qualidade estética e pela conexão emocional com o público.

Tradição que segue viva

A música cearense não pode ser definida por um único estilo ou geração. Ela é resultado de encontros entre o sertão e o litoral, entre o tradicional e o contemporâneo, entre a poesia e a festa. Ao observar a trajetória desses artistas, percebe-se como o Ceará construiu uma cultura musical plural e dinâmica, capaz de se renovar continuamente e de emocionar públicos dentro e fora do estado.

Foto principal: Trio Belchior-Fagner-Ednardo se materializa brevemente no palco, em 1997; em disco, nunca – foto Aila Benevides/Aura Edições Musicais

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