Rota da fé: jornada de devoção e milagres no chão cearense

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O Ceará, terra de sol inclemente e sertão resiliente, revela um mapa de profunda devoção popular, configurando-se como um dos maiores polos de turismo religioso do Nordeste brasileiro. A rota da fé cearense é um caminho sagrado, percorrido anualmente por milhões de peregrinos, que se movem pela esperança, gratidão e, acima de tudo, pela fé inabalável em figuras que se tornaram pilares da religiosidade local.

O circuito da fé no estado é vasto, mas a força dessa jornada se concentra, principalmente, no Cariri, no Sertão Central e na capital, Fortaleza.


Cariri: o coração da fé cearense

A jornada começa invariavelmente em Juazeiro do Norte, o centro da devoção a Padre Cícero Romão Batista (Padim Ciço), símbolo de resistência e esperança para o povo sertanejo. A fé é materializada na imponente Estátua de Padre Cícero, na Colina do Horto, que atrai romeiros vindos até de outros países em busca de bênçãos. As famosas Romarias de Juazeiro do Norte ocorrem em diversos períodos do ano, mobilizando milhões. A maior romaria de Juazeiro do Norte é de Finados, realizada no início de novembro. Ela atrai centenas de milhares de fiéis e é a principal manifestação de piedade popular do município, superando as romarias de Candeias (entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro) e de Nossa Senhora das Dores (30 de agosto a 15 de setembro) em número de participantes.

Ao lado do Padim Ciço, a região acolhe a devoção a Menina Benigna Cardoso da Silva, a “Heroína da Castidade”, de Santana do Cariri. Beatificada em 2022, ela é a primeira mártir católica do Ceará, e seu memorial atrai peregrinos anuais, especialmente em outubro.


O Cariri estende sua fé também para o vizinho Crato, que abriga a maior Estátua de Nossa Senhora de Fátima, consolidando-se como um importante destino Mariano. Em 2014, o Crato recebeu o primeiro monumento, com 45 metros de altura, até então a maior imagem de Nossa Senhora de Fátima do Brasil. Agora, com a reestruturação, a nova escultura de 54 metros de altura já se tornou referência nacional por sua beleza, consolidando-se como o maior monumento do mundo dedicado à Virgem.

O espaço, intitulado Santuário de Nossa Senhora de Fátima, também conta com a réplica da Capela das Aparições de Fátima (Portugal), reforçando a importância do turismo religioso e da devoção Mariana como marcas da identidade cratense.


Já em Barbalha, a devoção a Santo Antônio, o casamenteiro, se manifesta na vibrante Festa do Pau da Bandeira. Este Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil tem seu ápice no carregamento do tronco, levado por milhares de homens em um ritual de força e devoção ao padroeiro.

Gigante franciscano

No Sertão Central, uma cidade emerge como o segundo maior polo de peregrinação do estado. Canindé é a capital da devoção a São Francisco das Chagas, no Nordeste. É um verdadeiro refúgio franciscano que atrai uma das maiores romarias do país entre setembro e outubro. A Basílica de São Francisco das Chagas é o ponto de convergência, para onde se dirigem romeiros, muitos a pé.


A grandiosa Estátua de São Francisco das Chagas e o roteiro a pé “Caminho de Assis” complementam o circuito de fé na cidade.

Romarias

A força da fé Mariana em Fortaleza se manifesta de forma grandiosa na Caminhada com Maria. Realizada anualmente no dia 15 de agosto, solenidade da Assunção de Nossa Senhora, esta procissão é uma das maiores manifestações de fé do país e foi declarada patrimônio cultural imaterial. O evento reúne milhões de fiéis em um percurso de mais de 10 quilômetros. A Caminhada inicia no Santuário de Nossa Senhora da Assunção, no Vila Velha, e segue em direção à Igreja de Santa Edwiges, no Jacarecanga. Ao final do percurso, há a coroação de Nossa Senhora. Até o ano de 2024 o encerramento acontecia na Catedral Metropolitana de Fortaleza.


Outro marco da devoção Mariana na capital é a imponente Igreja de Fátima. Localizada em um bairro central e de fácil acesso, este templo, com sua arquitetura marcante em estilo neogótico, é um dos mais frequentados da Arquidiocese de Fortaleza. Seu dia de maior fervor é o 13 de Maio, data que celebra a primeira aparição de Nossa Senhora em Portugal. Nesse dia, a igreja e a Avenida 13 de Maio se transformam no palco de missas ininterruptas e de uma grande procissão que parte do Centro da cidade em direção ao santuário, atraindo milhares de devotos que buscam consolo e cumprem promessas, impulsionados pela profunda fé em Nossa Senhora de Fátima.

A rota da fé cearense inclui, ainda, manifestações de grande relevância histórica e espiritual, como as romarias do sertão que relembram o sofrimento do povo.

Caminhada da Seca (Senador Pompeu): com profunda ligação com a história de violação de direitos humanos, a Caminhada da Seca é realizada em Senador Pompeu em memória das vítimas dos campos de concentração da seca de 1932. Os peregrinos, chamados de romeiros das “Santas Almas da Barragem” ou “Almas da Barragem do Patu”, realizam a romaria (geralmente no segundo domingo de novembro) até o Santuário da Seca (Cemitério da Barragem) como um ato político-religioso que denuncia a “indústria da seca” e reivindica a dignidade humana.


Caminhada da Fé (Tauá): na região dos Inhamuns, Tauá realiza a sua tradicional Caminhada da Fé, que geralmente acontece durante a Festa de Jesus, Maria e José. Fiéis e peregrinos caminham em um ato de grande devoção e esperança.

Outros pontos notáveis, como o Santuário Mariano de Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão em Quixadá, e o Mosteiro dos Jesuítas em Baturité, reforçam a diversidade e a profundidade da fé no Ceará. A rota da fé é, em suma, mais do que um roteiro turístico, é um profundo mergulho na alma nordestina, onde o milagre, a promessa e a esperança caminham de mãos dadas com a história e a cultura.

Fotos: reprodução Cariri é Isso, Estácio Júnior, Tiago Stille e Sercom/ ArqFor (Divulgação)

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